Ricardo Tourinho - http://ricardotourinho.com

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Gritos Doidivanas

“Deixas-me vidas secas, como chão de açude, feições de Beckett; e foges perversa, para sugar outros homens, seringa nas glândulas.” (Xico Sá; Catecismos de Devoções, Intimidades e Pornografias)

Tragou até que a ponta incandescente se esvaiu em cinzas e numa fumaça que embaçou seus olhos com o sabor áspero da sua própria escatologia. Guardou um punhado de ar nos pulmões com arranhões de gilete na boca entreaberta e fotografou os dentes podres dos anjos entre sorrisos iconográficos de gozo. Sequer segundos lhe restavam, era aquele o momento de provar seu valor. Ascendeu o isqueiro na gasolina que brilhava ao asfalto empoeirado e fez em labaredas as cartas de amor que nunca entregou. Verborragias baratas da decepção que perfurou seu coração como prego enferrujado. Cada poesia borbulhava nas explosões sentimentalóides que se proliferavam em sua fogueira libertária. Desabafos contínuos que o fizeram ter ódio de si e do mundo. Suportou a dor com as lágrimas guardadas, devorando cada pedaço infame daquela paixão de nuvens de algodão, das brincadeiras e declarações juntinho ao ouvido. Morreu em pé, congelado no passado, grudado aos sorrisos da felicidade que lhe parecia eterna.

Taciano

Ao Som de: The Avett Brothers - Die Die Die

10:34:16 PM - Comentários:

Domingo, Setembro 09, 2007

Os Procurados

"Se sou pirata e desbravador de sertões, mago hindu e encantador de serpentes, como rotularam-me de funcionário e marido, eleitor e cidadão de um país de limites estreitos e geográficos?" (Walter Campos de Carvalho; Tribo)

Vesti a roupa de palhaço e corri até o banco. Gritei o assalto, empunhando meu revólver de plástico calibre trinta-e-dois. Cabelo de pompom, nariz vermelho, gravata borboleta, sapatão de bico quadrado, com o rosto pintado e a segurar uma bexiga azul amarrada num barbante. Raspei o cofre e levei a carteira rechonchuda do gerente. Na hora que o alarme tocou, a afobação. Surge um carro na porta e eu pulo dentro. Minha esposa no volante, com meus três filhos no assento detrás. Um de seis, a outra de quatro e o bebê de nove meses. Havia acabado de roubar a caranga na frente de um supermercado. Pelo retrovisor, as balas cortavam o ar. Orangotangos armados e o barulho polifônico da sirene. Cresci sob os paparicos de dondocas, mas hoje, mesmo sem um tostão furado e longe de beber aqueles apetitosos drinques com azeitona, não poderia deixar meus guris sem a mágica de algum divertimento. Então o nenê avista um helicóptero a voar no céu e aponta com seu dedinho miúdo. Deve ser alguma emissora de televisão, registrando a nossa fuga desesperada. Para os milhares de espectadores, fora minha bisavó que usa frauda geriátrica e deve estar grogue por causa das medicações na espera da novela começar, decerto, eu não devo ser o galã. O mocinho é aquele que corre atrás do bandido e um cara fantasiado de bufão, apesar da cueca por cima da calça, não tem jeito de super-herói. Na frente só há postes, sinais fechados, motoqueiros, taxistas e camelôs. É o fim de tarde neurótico da soterópolis... De repente, depois de virar uma esquina pra não bater num ônibus, minha mulher arregalou os olhos e freou de relance. Uma barricada apareceu diante de nós. Não sei quantas viaturas e policiais. Meu garoto mais velho, amedrontado, tirou um badogue do bolso e apontou na direção deles. Não tinha saída e nem como voltar. O balãozinho escapou pela janela e foi se debater entre os prédios de concreto. Caímos numa ratoeira gigante. Segurei o caçula no colo, aconcheguei os outros dois junto ao peito e fiz fonfom com o nariz de borracha. Nesse momento, minha amada sorriu para mim e pisou fundo no acelerador.

Taciano

Ao Som de: Sufjan Stevens - Springfield, or Bobby Got a Shadfly Caught in his Hair

5:31:58 PM - Comentários:

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