Ricardo Tourinho - http://ricardotourinho.com

Sábado, Janeiro 26, 2008

Que Soe O Gongo

"Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher."
(Henry Chinaski in Charles Bukowski, Mulheres)

Dizia que românticos são hamsters desesperados em busca de um pedaço de queijo podre, sempre prontos a cometer burrices por aquilo que não sabem se presta ou não. Por isso, era amargurado, um desapegado, narcisista chutador de balde. Cigarro aceso à boca, uísque tinha de ser cowboy. Gostava de ouvir folk rock apenas de cueca, sentado numa cadeira antiga na varanda do seu apartamento no décimo oitavo andar de um prédio vagabundo do centro da cidade. Costumava atirar bugigangas lá de cima, para acertar as pessoas na calçada, numa manifestação sem sentido de poder e gozo. Abajur, garrafas, pedras de gelo, restos de comida, tudo que encontrava pela frente na bagunça do que acostumou a chamar de buraco dos deprimidos. Sem controle algum, aos domingos pegava seu Mustang Hertz Shelby, herdado do finado avô, para fazer pega dentro do próprio bairro onde mora. Perdeu as contas de quantas vezes foi preso, apanhou de ladrão e teve o carro rebocado. Mas não perdia o rebolado, era o durão. Numa certa madrugada, bêbado de cão lamber os beiços, pegou o telefone e ligou para o primeiro número que veio à mente. Para sua infelicidade, era o celular da vizinha do lado, que lutava boxe e tinha gostos sexuais extravagantes. Minutos depois, teve a porta arrombada pela Cassius Clay de vestido e foi violentado noite adentro, sem a mínima chance de reação. Amanheceu pelado, amarrado na cama, amordaçado e todo quebrado dos golpes que levou. Seu coração recebeu um jab certeiro, que o deixou grogue de tanta paixão. Era tudo de pornográfico, insano e doentio que sempre quis para si. Daquele dia em diante, deixou de lado as velhas manias quiromaníacas e passou a rabiscar cartas idiotas de amor, como um bom camundongo.

Taciano

Ao Som de: LCD Soundsystem - All My Friends

7:03:52 PM - Comentários:

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Seja Aqui Ou Na Romênia

"Olhando para o chão, ele foi até a cozinha, abriu a geladeira e jogou a sobremesa no lixo. Naquela noite, mais uma vez, dormiu no sofá." (Daniel Pellizzari, Ovelhas Que Voam Se Perdem no Céu)

Poderia ser diferente, mas ela não se interessa, está dispersa, de olhos entreabertos para tudo que já foi. Não deseja entorpecida meus afagos e não sente nos beijos, nos lábios, a pressa louca dos apaixonados. Vive de cada dia o suspiro escondido de um outro, deixa de lado a magia do agora e faz do sorriso um abrigo de si mesma, de mim. Escorrega pelos dedos, foge dos meus perigos, não sabe se entregar. Sua batalha é com a tristeza, num precipício, parada no tempo, feito uma flor de espinhos cravada no peito. Sente a magoa de ilusões espatifadas, bebe da crueza enfadada daqueles que não enxergam o amanhã. Pois faria para ela o que não cabe em juras, lhe mostraria a cura, o mar por trás das terras desertas. Buscaria, se fosse preciso, entre os cantos do mundo, no céu, em qualquer lugar, o brilho que do olhar perdeu. Mostraria a poesia guardada, a vontade de amar sufocada, a empolgação que não consegue ver. Uma felicidade que está de porta aberta, batendo no coração elétrica, no aguardo da coragem do passo adiante.

Taciano

Ao Som de: Beirut - Nantes

10:43:28 PM - Comentários:

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