"O universo: uma malha de letras minúsculas, de proporções infinitesimais." (Joca Reiners Terron, Não Há Nada Lá)
Deitado na rede de pés para o céu, não queria mais nada fora ser herói do seu filho de três anos que lhe puxava os braços numa aporrinhação danada. Sofria embiocado dentro do banheiro por não ter se tornado astronauta, mas deu um jeito de decorar o quarto onde dormia com lindas bolinhas de gude azuis. Sua mulher era pintora de cartões postais, vivia entre naturezas mortas o dia inteiro para pagar as contas do mês. Afastado do trabalho por causa de uma doença degenerativa, resolveu chacoalhar a vida e tomou as redias da profissão solitária de babá! No começo, padeceu entre fraudas e mamadeiras madrugadas à dentro, porém, com o tempo, pegou o traquejo na arte de ser papai. Arrumou uma caranga ampla para caber os milhares de balangandãs de bebês, abandonou a cerveja gelada, deixou de lado o futebol, investiu o dinheiro da aposentadoria precoce em utensílios para o lar e comprou um manual de como ser dona de casa em cinco passos. Deu tão certo isso de cuidar de criança, que, apesar de casado, fundou uma organização não governamental de amparo a pais solteiros! De servidor público encostado para palestrante e pai do ano! Saiu do coma para outra vez beber da alegria de ser útil em algo... Seu verdadeiro futuro estava ali, diante dos olhos, engatinhando e sorrindo-lhe engraçado com carinho! Não precisava mais das bolinhas de gude para sonhar, até porque tinha medo que o filhote as engolisse! Botou uma panela na cabeça, pendurou seu guri num macacão de canguru e saiu correndo de braços abertos, flutuando pela sala: virou astronauta do universo singular da paternidade!