Ricardo Tourinho - http://ricardotourinho.com

Terça-feira, Abril 15, 2008

Manjar de Açougueiro

"Eram cravos as flores que incendiaram de esperança a manhã e me floriram a alma até não mais me lembrar." (João M. Jacinto)

Seus dentes podres de nicotina não tinham muita importância na rotina de açougueiro, abocanhavam apenas garrafas geladas de cerveja perto do horário de almoço, para abrir o apetite, afinal, nem todas as carnes dão vontade de comer, sobretudo as dos suínos irritantes que morriam aos gritos. Esfaqueava bichos o dia inteiro, retirando suor com as mãos, feito um cirurgião de hospital público, indiferente aos olhares alheios de desespero. Sentia tesão ao cortar pescoços de galinhas e enxergava o sangue pingar sobre pratinhos limpos de louça como se fosse um espetáculo teatral, seduzido. Molho pardo, dizia ávido. Sua aparência asquerosa lhe garantia o repúdio até dos piores nojentos. Por isso tudo, não tinha interesse pelas mulheres ou elas por ele, tanto faz. Nem as quengas aceitavam seu dinheiro, pois não suportavam o mau cheiro. Para satisfazer as vontades, assim, esgotado de tanta rejeição, virou adepto de um masoquismo radical, golpeando o próprio corpo com machadadas mutilantes. Primeiro decepou os dedos dos pés, em seguida as pernas e depois as orelhas e um dos braços. Delirando de gozo, arrastando-se pelo galpão escuro onde sacrificava os animais, atirou o tronco desfigurado numa máquina de retalhar e embalar carne. Semanas depois, encontraram-no num restaurante granfino, cozido e bem temperado, e foi, enfim, apreciado e degustado como uma iguaria dos deuses, e quem o provou, gostou demais.

Taciano

Ao Som de: Death Cab for Cutie - Steadier Footing

5:37:13 PM - Comentários:

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