"O criador queria desviar de si mesmo o olhar... e criou o mundo." (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)
Desempolgado, ergueu as pálpebras agoniado e viu Yukio Mishima vestido de samurai na porta da igreja. A ambição havia desaparecido do nada, embora o vazio guarde, por vezes, surpresas inesperadas de algo que não se pode explicar. No purgatório da vida, os agiotas cobram juros altos e já estava pobre de alegrias. Assim, de tanta falta dentro do peito, disse ser o verdadeiro filho de Deus, gerado da própria barriga, sem temor da boca entreaberta da morte devoradora de sonhos. Enquanto detonações estelares iluminavam o céu, fotografava a virada dos séculos com olhos de Verger. Pregou o desamor, a infidelidade da paz, indócil em pontos de ônibus, nas estações de metrô. Gastou os últimos tostões contratando mendigos para serem seus anjos seguidores. Ficou enrugado das tristezas, com sorrisos falsos de canto de boca, de gritos insanos pelas ruas e becos da soterópolis. Na agitação veloz dos pensamentos, o sol é uma bomba de hidrogênio, devastador da mágica esperança de um futuro que nunca imaginou. Narcisista por acreditar só em si mesmo, de óculos escuros para o mundo, no auge da piração, amarrou o corpo num poste e disse que iria ser arrebatado por luzes intergalácticas. Mas não contava com fanatismos alheios e foi apedrejado por políticos de direita que o confundiram com algum partidário comunista! Atordoado, abandonado na sarjeta pela multidão de idólatras comprados, rastejou até o sanatório mais próximo e implorou de joelhos internação. Queria ser curado das fraturas que sofreu na alma!