"A ventarola da cabine ficou aberta, o vento entra e sai furiosamente, joga um frio que arde em meus lábios." (Paulo Scott, Ainda Orangotangos)
Ficara sentado por um longo tempo naquele bar, com os olhos grudados no celular sobre a mesa, enquanto o café amargo esfriava o gosto na xícara. Vez por outra, desviava o olhar para a janela, perdendo a atenção ao ver a agitação da rua. Conseguia enxergar bem mais do que automóveis e pessoas apressadas do outro lado do vidro, numa fobia enlouquecedora de detalhes. Gotas de suor escorrendo pelos corpos, o brilho cegante dos metais refletidos no sol, insetos gigantescos voando, labaredas sufocantes ao asfalto, fumaças de cigarro riscando o céu, sombras fugitivas. Mas logo voltava a focar no bendito aparelho, engolindo-o com seu padecimento, aflito por não ter o controle da situação, que nem um prisioneiro no corredor da morte. Seus dedos da mão direita tateavam o balcão irrequietos, balançava as pernas, como uma válvula de escape para tudo aquilo que não podia desabafar num grito ensurdecedor. E por causa dessa ansiedade sem fim, dentro daquela boca sisuda, seus dentes rangiam feito gilete esfregada em concreto. Diversas tragédias chegavam ao pensamento na busca de explicar aquela demora e os ponteiros do relógio pareciam sinos de igreja badalando os segundos na espera de um toque, um simples vibrar que nunca acontecia. Assim, antes que explodisse pedaços da sua angústia nas garçonetes, levantou afobado, pagou a conta, pegou um táxi e foi até a praia mais próxima, onde arremessou o celular longe no mar. Se tinha de aguardar e isto lhe fazia sofrer, preferiu ficar com a dúvida, do que envelhecer ao acaso de uma ligação e não viver a atitude do passo seguinte. Paciência demais estraga o fruto ainda no pé.