Ricardo Tourinho - http://ricardotourinho.com

Domingo, Janeiro 11, 2009

O Futuro Que Não Chega

"As horas desfazem muitos planos, mas também abrem muitos caminhos."
(Roberto Ney, As Horas)

Apesar de alguns desconfortos, não conseguia sair do lugar. Vinte quatro anos, sete dias e oito horas de espera, sentado no mesmo banco. Um ponto de ônibus, na beira de uma pista esburacada, em frente a uma faixa de pedestres e bem embaixo dum semáforo quebrado. Rosto petrificado, não tinha expressão alguma. Se não fosse o fato de piscar os olhos de vez em quando, seria facilmente confundido com um defunto embalsamado. Barba deveras grande, cabelos emaranhados, boca rachada, roupas gastas. Vestia um paletó, não usava relógio e segurava uma maleta. A gravata folgada apertava o pescoço, dificultando a respiração. Folhas secas cobriam seus pés descalços, repletos de calos e feridas abertas. Aprendeu a suportar as dores. Sequer falava uma palavra e parecia não se incomodar com o sol forte, nem com as chuvas ou qualquer outra mudança no tempo. Não tinha amigos, não sabia a própria idade, nunca chegou a se apaixonar. Sua vida era restrita aos acontecimentos da rua onde ficava o ponto de ônibus. Só que nada acontecia. Estava sozinho, no meio de coisa alguma, sem perigos, prazeres ou emoções. Vazio profundo, que penetrava seu coração como uma britadeira. De repente, para sua surpresa, avistou um ônibus dobrar a esquina no início da avenida. No começo, ainda ensaiou erguer o corpo e estender o braço, mas não o fez. E com isso a lotação passou rápido, como um foguete desgovernado, cuspindo poeira em seus olhos. Poderia ter apanhado o ônibus, mas não agüentaria ver seu passado desaparecer aos poucos na fumaça que ficava para trás.

Taciano

Ao Som de: Cascadura – Ele, O Super-Herói

2:49:33 AM - Comentários:

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